Durante uma exploração de um território desconhecido, jovens ganham poderes sobre-humanos e passam a utilizá-los de formas distintas. Enquanto alguns apenas se divertem, um indivíduo acaba corrompido pela mudança. Foi com essa premissa que Josh Trank comandou o filme Poder Sem Limites. Em Quarteto Fantástico (Fantastic Four), o diretor tem uma base semelhante, mas com a responsabilidade de trazer a tão esperada revitalização do famoso grupo da Marvel.
Trank declarou que sua intenção não era fazer um típico filme de super-heróis, mas algo mais voltado para a ficção científica com uma inspiração em David Cronenberg. É notável que em grande parte da produção, o cineasta realizou o que desejava. Porém, quando o longa transita do sci-fi para o filme de herói, não tem o tempo adequado para o seu desenvolvimento e acaba por decepcionar.
Na trama, Reed Richards dava sinais de sua genialidade desde criança, sonhando em construir uma máquina que teletransportasse objetos para outras partes do planeta. Quando consegue desenvolver o protótipo, o garoto nem imaginava que tinha obtido acesso à outra dimensão, que apesar de não ser nomeada é indicada como a Zona Negativa dos quadrinhos.
Já um jovem numa feira de ciências, Richards (Miles Teller) desperta o interesse do Dr. Franklin Storm (Reg E. Cathey), que o convida para integrar um projeto com o objetivo de chegar até uma dimensão paralela. Ele aceita e no centro de pesquisas conhece Susan (Kate Mara) e Johnny Storm (Michael B. Jordan), filhos do Dr. Storm. Neste ponto, o filme tem bastante do conceito que permeia as HQs do quarteto: a família - uma família moderna - já que Susan é irmã adotiva de Johnny e não tem a mesma etnia.
Com a entrada de Victor Von Doom (Toby Kebbell), a produção foca no lance da ficção espacial, com elementos de pesquisa, exploração e desenvolvimento de aparelhos e trajes. Isso é ótimo, pois as melhores histórias do grupo são as que unem ficção e ciência. É o momento para as relações dos personagens serem estabelecidas e termos pistas de como se formaram suas personalidades, principalmente a de Reed Richards.
O declínio do filme começa exatamente onde deveria ser um de seus melhores momentos: o ganho e uso dos poderes. Não que eles não sejam bem retratados, pelo contrário, eles são bem mais reais que nos longas anteriores. O Coisa (Jamie Bell) parece mesmo ser feito de pedra, Sr. Fantástico, Mulher Invisível e Tocha Humana utilizam uma variedade maior de movimentos e participam de sequências visivelmente mais bem produzidas.
O problema e que não há tempo para conhecermos os personagens com seus poderes, não há tempo para acompanhar suas atuações quanto equipe. Por exemplo, num dos poucos momentos em que vemos o Coisa em ação, temos uma visão militar, feita em vídeos de qualidade técnica ruim. Com isso, Dr. Destino surge, (muito mal caracterizado, diga-se de passagem) com um plano megalomaníaco, os heróis se unem para enfrentá-lo e a ação acaba rapidamente.
Os outros filmes ao menos deram espaço para conhecermos os membros da equipe antes da luta final e criaram conflito entre os personagens. Ben Grimm culpa Reed Richards, seu melhor amigo, por sua transformação num homem de pedra, e o cientista sente-se amargurado por acreditar que a mudança na estrutura física de todos é sua responsabilidade. Aqui, há um vislumbre disso, que acaba por compor mais um problema do longa: lançar assuntos que poderiam ser melhor trabalhados, mas que são esquecidos pelo meio do caminho.
Para um estúdio que utiliza X-Men: Dias de um Futuro Esquecido como uma referência, a Fox poderia ter aproveitado melhor essa oportunidade e inserido algum easter egg ou menção ao universo mutante. Tal atitude possibilitaria um interesse maior do público e a chance de contar histórias mais ousadas em possíveis continuações. Com o filme finalizado do modo que foi, com o pouco tempo de duração, vemos que houve uma discordância entre o que o diretor planejava e a versão que foi aprovada.
O longa tinha potencial para finalmente entregar algo digno do Quarteto, mas, com a desconfiança que gerou durante toda a sua produção, não era necessário ser um Reed Richards para concluir que o resultado não seria nada fantástico.
Nenhum comentário:
Postar um comentário