terça-feira, 21 de abril de 2015

Chappie - Crítica

Cristiano Almeida

Em seu primeiro filme, Distrito 9, o diretor Neill Blomkamp tratava da trasmutação numa trama que envolvia preconceito e uma metáfora ao regime de segregação racial, o apartheid. Em Chappie, o cineasta revisita a premissa da mudança, colocando um robô pensante no meio de um ambiente hostil e degradante, a periferia de Joanesburgo.

Antes de se tornar uma máquina com sentimentos, Chappie era um dos inúmeros escoltas, robôs criados para substituir policiais e tentar conter a crescente criminalidade. Num projeto inovador, o engenheiro Deon (Dev Patel) cria um dispositivo que insere consciência no androide, despertando no modelo atitudes de uma criança que acabara de nascer e que, consequentemente, deveria ser orientada.

Acontece que a inteligência artificial é capturada por um grupo de assaltantes, que querem utilizá-lo para cometer um assalto. A partir daí começa uma jornada de aprendizado, influências, dramas e alegrias para a máquina. As influências são balanceadas entre o bem e o mal com as presenças de Yo-Landi e Ninja. Yo-Landi passa a enxergar Chappie como a um filho e se dispõe a ensinar atividades enriquecedoras; Ninja representa o pai, obstinado em liderar o lar e direcionar seu legado de crimes para o "herdeiro".

É nesse lar controverso que o robô vai "crescendo", rodeado por prédios abandonados, criminosos, drogas, armas, mas também pelo conhecimento da leitura e da pintura, atitudes possíveis pelo trabalho conjunto de Yo-Landi e Deon. Neill Blomkamp utiliza essa ambientação socioeconômica para mostrar como as influências podem definir a personalidade de uma pessoa para o bem ou para o mal, dependendo muito de seu poder de escolha.

O trabalho de Sharlto Copley - colaborador ativo de Blomkamp - é memorável. No papel de Chappie, o ator transmite as descobertas, medos e angústias da máquina de forma muito satisfatória. Desde os trejeitos de uma criança descobrindo o mundo até alguém imerso na criminalidade, o robô causa empatia com seu jeito desajeitado e engraçado.

Com isso, o personagem traz à tona questões que renderiam bons debates. O uso da inteligência artificial, um novo passo na evolução, as influências do mundo, o livre-arbítrio...São temas que, ao final da sessão, permanecem em nossas mentes, nos permitindo refletir e repensar vários conceitos.

Chappie é o terceiro filme de Blomkamp, diretor que usa o cinema como veículo de denúncia e alerta. Ao inserir suas tramas de ficção num contexto social, o cineasta divulga uma triste realidade da África do Sul e de muitos países do mundo. Desse modo, ele produz não só um entretenimento com sequências de ação bem realizadas, mas uma obra que tem a sensibilidade para tratar temas polêmicos pelo olhar de uma criança em desenvolvimento, mesmo que essa criança seja uma inteligência artificial que acabara de nascer.

Leia a crítica de Elysium

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Jornalista apaixonado por cinema. Idealizou o blog com o desejo de partilhar as maravilhas da Sétima Arte com outros cinéfilos e quem mais se interessar pelo assunto.